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Como seria um novo modelo de rede social para 2014?

Prever as grandes inovações no mercado digital é sempre um exercício de futurologia quase vazio, muito menos calcado em linhas racionais exatas do que em sustos saltando de uma espécie de vácuo de demanda.

Afinal, por mais que se cisme em dizer o contrário, o ativo mais disputado do mundo é, hoje, o que existe em maior abundância: tempo.

Tempo multiplicado

Sim: a maioria dos usuários trabalha, luta para ter uma vida social, cuida de suas famílias, estuda etc. E tudo isso pode parecer esgotar o tempo útil dedicado a navegações – não fosse o fato de termos nos transformado em criaturas absolutamente multitarefa. Hoje, navegar na Internet não compete com assistir TV ou jantar com amigos: para o bem ou para o mal, a navegação passou a conviver, simultaneamente, com as demais atividades humanas.

Isso nos leva a uma existência dupla, para dizer o mínimo: as mesmas 16 horas que passamos tocando a nossa “vida física” podem ser também dedicadas à operação simultânea da nossa “vida virtual”, seja respondendo emails, tuitando, combinando eventos no Facebook, blogando ou usando qualquer outra ferramenta existe enquanto desempenhamos as nossas “tarefas cotidianas tradicionais”.

As 16 horas do dia em que se costuma passar acordado, portanto, rapidamente se transformam em 32 horas (ou mais, dependendo da velocidade de processamento e usabilidade dos aplicativos utilizados).

O resultado disso é simples: apesar de reclamarmos tanto da falta de tempo para tudo, nunca tivemos tanto tempo para fazer qualquer coisa. E há dois grandes responsáveis por isso: as redes sociais, que viabilizaram contatos com pessoas de forma instantânea e globalizada, e os smartphones que, ao nos acompanhar em praticamente todos os instantes do cotidiano, possibilitaram que esses mesmos contatos fossem feitos de acordo com a nossa vontade (e não com o nosso “momento”, incluindo estar próximo a um computador conectado).

Hoje, um usuário médio passa 10,7 horas consumindo mídia digital por dia (equivalente a 54% de seu consumo geral de mídia diário). A não ser que se esteja falando de uma média de pessoas que dorme apenas 4 horas por dia, esse dado, por si só, mostra o quão simultâneo é o consumo de mídia e o espaço de crescimento que ele ainda tem.

Quer uma pista de como esse volume cresceu tanto? Entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2013, o volume de consumo de dados em plataformas mobile saltou de quase nada para 31% em smartphones e 7% em tablets , deixando clara a importância desses dois meios.

As redes como bandeirantes em terras virgens

É essa multiplicação de tempo que torna tão difícil observar os movimentos no mercado de redes sociais. Afinal, quando uma rede começa a crescer de forma mais exponencial, ela não “rouba” espaço de uma rede já consolidada, o que impede que sequer se detecte mudanças imediatas no cenário. Ao contrário, ela simplesmente faz com que usuários “produzam” mais tempo para dedicar a ela enquanto permanecem ativos por um bom tempo nas redes que estiverem habituados.

Para ficar apenas em um exemplo, o Facebook não deixou de crescer a ritmos astronômicos quando o Instagram se mostrou uma nova potência social.

Para os observadores de mercado, portanto, não adianta muito ficar atento apenas a eventuais flancos deixados abertos pelos líderes, mas sim pelas demandas dos usuários na Internet como um todo. Ou seja: o caminho para o sucesso dificilmente passará por fazer bem o que o Facebook faz mal, mas sim por detectar sonhos e desejos de usuários que não sejam bem trabalhados por nenhuma rede.

É como se os empreendedores de hoje fossem bandeirantes em uma terra virgem: brigar com outros bandeirantes faz pouco sentido quando se tem tanto espaço para crescimento em praticamente todas as direções.

E para que direção 2014 aponta?

Quando se busca entender o que quer o usuário, a resposta mais óbvia é: conteúdo.

Em outubro de 2013, o alimento mais buscado pelos usuários americanos foi “abóbora”. Isso significa que uma massa descomunal de pessoas subitamente desenvolveu desejo por comer abóbora? Claro que não: significa que outubro é o mês do Halloween nos Estados Unidos e que decorar abóboras faz parte de uma tradição secular.

No rastro da abóbora, outros termos se destacaram nas buscas, como a história do feriado, livros sobre Halloween, a indústria do Halloween, filmes de terror e assim por diante. E isso nos dá duas informações práticas que ilustram bastante o que quer o usuário:

1.Os assuntos de interesse são momentâneos, gerados por motivações pessoais vinculadas a eventos, fatos marcantes etc. Alguma dúvida de que a copa do mundo será o tema da vez no planeta em junho do ano que vem?

2.Todo assunto traz um ecossistema de conhecimento, incluindo filmes, livros, histórias, dados etc. que se transformam em objeto de consumo dos usuários. Quando um assunto entra na moda, por mais efêmera que seja, o desejo de se especializar nele é nítido.

Uma nova proposta de rede social para 2014

Assim, apenas com esse punhado de conclusões na mão, é possível arriscar como seria uma nova rede social, diferente do Facebook, do Twitter, do Pinterest e de todas as outras. Em linhas gerais, suas características incluiriam:

Centrada em temas: O foco principal da rede não seria o usuário (com grupos de amigos e influenciadores em torno de si), mas sim temas. Isso significa que pessoas seriam menos importantes do que os assuntos responsáveis por uni-las.

Conhecimento formal: Para suprir a demanda quase infinita por conhecimento em torno de qualquer tema, por mais nichado que seja, uma rede “formal” de conteúdo precisaria ser criada dinamicamente. Quer se aprofundar mais no universo em torno do “tema” Nelson Mandela? O usuário deve localizar livros, vídeos, artigos, notícias, podcasts, vídeo-aulas e todo um acervo organizado de forma colaborativa e dinâmica (possivelmente bebendo de mecanismos de outras redes como contadores de tweets e likes).

Com contribuidores, não influenciadores: Na medida em que um usuário postasse ou recomendasse mais informações sobre um determinado tema, ele naturalmente começaria a se destacar como um maior conhecedor dentro da comunidade. Além de um senso de propósito, isso serviria como uma motivação perfeita ao endereçar as imensas necessidades de ego que praticamente definem o perfil médio de um usuário em qualquer ponto do globo.

Dinamismo: Temas vem e vão a uma velocidade quase supersônica. Essa nova rede deveria ser capaz de formar ecossistemas temáticos de maneira quase instantânea, na medida em que eles surgissem, bebendo informações de fontes como Google, Facebook, Twitter, Instagram, blogosfera e outros.

Multiplataforma: Seja como for a rede, ela precisa estar integrada a todas as fontes de conteúdo, de redes sociais a e-readers. E, claro, ser aberta para que consiga sempre beber dessas fontes.

É bem possível que alguma rede com essas características já exista por aí e esteja nos seus primeiros estágios de crescimento – mas o fato é que esse é apenas um dos milhares de caminhos que nascem de demandas de usuários que, no mínimo, são abordadas de forma excessivamente tímida.

Afinal, não seria incrível poder montar um novo modelo de aprofundamento de conhecimento baseado não em centenas de mergulhos em lagos rasos (o que exige um monumental esforço de busca), e sim em um único mergulho profundo, com a certeza de sucesso absoluto no menor tempo possível?

O nosso tempo pode ser abundante – mas isso não significa que ele não seja precioso.

Por Ricardo Almeida
Publicada em 16/12/2013 no IDG Now 

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